Reflexões de uma educadora em formação

Minha chegada e contexto na São Remo

Relato I

Conheci a São Remo em 2006, ano em que ingressei no curso de pedagogia da Universidade de São Paulo. Depois de dois meses trabalhando como educadora em uma creche dentro da comunidade decidi morar lá. Ainda não havia lido Paulo Freire mas penso que a idéia de morar no mesmo lugar onde trabalharia estava ligada a acreditar na importância do educador se aproximar, conhecer, estar presente e conseqüentemente sensível ao universo dos educandos, enfim, ser uma educadora com o povo.

Essas são idéias fortemente presentes na obra de Freire e que podem ser expressas na seguinte passagem:

O educador estabeleceu, a partir de sua convivência com o povo, as bases de uma pedagogia onde tanto o educador como o educando, homens igualmente livres e críticos, aprendem no trabalho comum de uma tomada de consciência da situação que vivem (Freire, 1967).


Meu envolvimento com a comunidade se estreitou e os laços com a Universidade arrefeceram, aprendi muito através da prática e das formações em trabalho organizadas pela então coordenadora da creche, uma profissional excelente e muito compromissada com a educação, diga-se de passagem. Paralelamente, a universidade parecia me oferecer teorias demasiadamente descoladas da realidade, ou como escreveu Arelaro:

(…) este país desigual, de que falamos muito pouco e tentamos mudá-lo menos ainda. Desigualdade e pobreza, muitas vezes são apenas frases dentro da academia. Pobre é bonito em fotografia: sem cheiro, sem movimento, sem desejos.” (2005)

Na São Remo eu via vida, movimento, beleza. Nunca havia morado em uma favela, mas por pertencer a grupos que historicamente não freqüentaram sequer a escola, e muito menos a universidade – sou negra e neta de migrantes nordestinos – me identifiquei bastante com a comunidade e fui muito bem recebida. Nas palavras dos Racionais MC´s: Na periferia a alegria é igual/ É quase meio dia, a euforia é geral/ É lá que moram meus irmãos, meus amigos/ E a maioria por aqui se parece comigo.1

Apesar de saber da forte desigualdade social presente no Brasil, nunca aceitei nem compreendi, enquanto aluna, o fato de haver tamanhas precariedades numa favela que fica tão perto de uma instituição de educação superior do porte da USP e, após o contato com a São Remo, quase abandonei a universidade.

Em 2010 mudei de função dentro do mesmo local de trabalho (Projeto Girassol2), deixando a educação infantil para trabalhar como alfabetizadora de jovens e adultos pelo MOVA3, e através do contato com os alunos adultos fiquei ainda mais chegada à São Remo, mais interada de algumas condições de vida presentes na comunidade e inconformada com a maneira como se dão as relações entre ela e a USP. Por outro lado, senti falta de teorias que alimentassem a reflexão sobre a minha prática como educadora, e retomei as atividades da graduação.

A busca por considerar algumas reflexões de Paulo Freire na minha prática com os adultos me levou a assumir uma participação na Associação de Moradores do Jardim São Remo, inicialmente enquanto professora e atualmente como parte da gestão.

Bibliografia:

ARELARO, Lisete Regina Gomes. A pedagogia da terra: novos ventos na universidade. In: Economia Solidária e Educação de Jovens e Adultos. KRUPPA, Sonia M. Portello (org.) Brasília: Inep,2005.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1967.

1 Letra da Música: Fim de Semana no Parque. Racionais MC´s. Album: Racionais MC´s (2000).

2 O Projeto Girassol é uma ONG que faz parcerias com a Prefeitura Municipal de São Paulo. No espaço da ONG funcionam: uma creche durante o dia, a alfabetização de adultos à noite e outras atividades como capoeira e aulas de artesanato.

3 Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos.

Texto escrito por Mariana Machado Rocha
Seleção de Imagens por Pâmela Leão

Caracterização do grupo

Relato II

MOVA/São Paulo: O MOVA é um programa de alfabetização de jovens a adultos. Presente em diversos municípios brasileiros, em São Paulo foi instituído durante o mandato da prefeita Luiza Erundina que teve como secretário da educação o professor Paulo Freire.

Atualmente para abrir uma turma de MOVA em São Paulo é necessário haver uma lista de interessados, um espaço disponível para as aulas e uma instituição com CNPJ (ONG, Associação de Moradores de Bairro, entre outros) que faça um convênio com a PMSP. Enquanto a ONG fica responsável pela manutenção do espaço, levantamento de interessados, divulgação das vagas e contratação do educador e do coordenador, a prefeitura envia uma verba que será destinada ao salário dos educadores e à compra de materiais.

Assim, o grupo em questão trata-se de uma turma que teve origem em um programa de alfabetização da Universidade de São Paulo (Alfa-USP), que atuava com o trabalho de estudantes voluntários e acabou devido à dificuldade de manutenção de um programa sem investimentos, o que ilustra a debilidade dos programas de extensão universitária na USP1. Com o fim do programa a turma foi encaminhada ao convênio da prefeitura com uma ONG que atua na favela Jardim São Remo, localizada ao lado do próprio campus e onde ocorrem as aulas.

Com cerca de 15 alunos, as aulas acontecem de segunda a quinta-feira das 19h às 21:30h. Grande parte dos alunos veio do nordeste em busca de melhores condições de vida e trabalho. São pessoas que tiveram o acesso à educação negado durante a infância em grande parte devido à necessidade de trabalhar cedo para ajudar na renda familiar.

 O foco das aulas situa-se entre alfabetização e pós- alfabetização, e sempre que possível esses trabalhos são desenvolvidos conjuntamente com conteúdos de disciplinas ligadas às ciências sociais, que trazem aos alunos suportes que possibilitem lançar um novo olhar sobre a realidade da qual fazemos parte.

O que dizem os documentos: Enquanto as Diretrizes Curriculares Nacionais para EJA relatam todo o histórico da educação de adultos no Brasil e justificam que não poderia haver, para esta modalidade, diretrizes além das já existentes para o ensino fundamental, pois seria como “duplicar” o acesso à educação básica, que deve ser a mesma para crianças e/ou adultos, frisando porém, que com alunos adultos há toda uma vida e diversos conhecimentos empíricos que devem ser considerados no desenvolvimento das aulas, as Orientações Didáticas trazem as influencias de autores como Paulo Freire, que trouxeram como imprescindível para a EJA e a alfabetização de adultos os elementos da conscientização, emancipação e politização.

1 Considero como extensão apesar de não ser oficialmenteligado à Pró-reitoria de cultura e extensão da USP.

Texto escrito por Mariana Machado Rocha
Seleção de Imagens por Pâmela Leão

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